Nunca imaginei uma criança alfabetizar-se a partir da leitura de inscrições de túmulos, e o que é mais inquietante e significativo ainda, ser uma experiência feita poeticamente. *

Este é o contexto do livro “A menina que aprendeu a ler nas lápides” - de Severino Antônio Moreira, que se diz encantado com a história de Giovanna Cury, 8 anos.

“Há mais de 30 anos na área da educação, vi poucas histórias tão surpreendentes como esta, tão bonita, tão cheia de poesia”, destaca o autor, que é Mestre em Educação pela Unicamp.

Giovanna “não tinha nem dois anos completos” quando começou a balbuciar as primeiras palavras, que lia nas lápides do cemitério Memorial da Paz, em Pindamonhangaba, explica o avô da menina, José Carlos Fernandes, 57 anos, que trabalha como zelador do cemitério.

A lápide e a alfabetização

Em meio aos túmulos, flores e o eterno silêncio do cemitério, crescia Giovanna.  Seu avô já trabalhava lá quando ela nasceu, mas foi em meio as brincadeiras em volta dos túmulos que surgiram os primeiros contatos com a palavra, lembra a menina.

“A primeira palavra que li foi ‘Ana’, depois li ‘Maria’, ‘João’, ‘José’… E hoje leio de tudo um pouco”, explicou Giovanna. 

Giovanna aprendeu a ler nas lápides dos jazigos

Desinibida e muito madura para a idade, Giovanna é o orgulho do avô, da mãe e das professoras.

“Meus dois filhos aprenderam a ler com o meu pai, aqui dentro do cemitério, mas o Raphael é mais tímido, já a Giovanna, sempre foi muito desinibida para conversar, para lidar com as pessoas”, ressalta a mãe de Giovanna, Sandra Regina Fernandes. 

O cemitério era o quintal da casa da menina e neste vasto quintal, ao lado do avô, ela se encantou pelas letras que via nas placas dos jazigos.

 

Um local que lembra a morte a todo instante: um lugar para a vida, para o nascimento da escrita, da alfabetização.

O Avô, que cursou apenas os primeiros anos do ensino fundamental (antigo primário) diz que não sabia o quanto colaborava com a educação da menina, com o desenvolvimento pedagógico.

“Ela brincava o tempo todo do meu lado, eu ia limpando e ela ia atrás. Quando percebi que ela parava em frente as placas, mostrei o primeiro nome a ela: ‘Ana’, e lhe expliquei que era ‘A’, ‘N’ e outro ‘A’, então ela correu para procurar outro nome igual, era visível a vontade de ler, de conviver com as palavras”, afirmou o avô.

Todo este processo de aprendizagem durou cerca de 10 meses, até Giovanna começar a ler tudo sozinha. Apesar da vida simples, José Carlos passou um ensinamento complexo, sem técnica pedagógica, mas com muito amor, serenidade e beleza de espírito.

Um outro olhar

Para o autor do livro que Giovanna protagoniza, sua trajetória é mais que uma história incomum, é a mistura de três pilares que sustentam a família, a vida: Empatia, brincadeira e literatura.

“A história é muito bonita porque carrega a relação com a vida, a empatia, a literatura, a vida cotidiana, o laço familiar, enfim, um eterno aprendizado”, argumenta o autor.

A vice-prefeita Myriam Alckmin e o autor do livro, Severino Antônio

O desejo do avô é que tudo contribua para o crescimento da menina, de forma tranquila. “Para mim, tudo isso que ela está vivendo me deixa muito orgulhoso, mas o que espero para ela é um futuro melhor, feliz, tranqüilo, cheio de sucesso e paz”, deseja.

Paz esta que Giovanna buscou dentro do cemitério, em meio às lápides, aos pássaros, aos canteiros. “O cemitério é um lugar bonito, nunca tive medo de viver aqui dentro”, afirma Giovanna.

Sobre o futuro, sonha em repassar aprendizado: “Quero ser professora, ensinar aos outros tudo o que sei, tudo o que aprendi com meu avô. Eu gosto de ensinar, de ler, de falar”, explica.

Não é a toa que a menina surpreende todos a sua volta, com uma linguagem adulta e frases completas, ela encanta a família, os amigos, os professores, principalmente, a pedagoga Melina Beatriz Carneiro Alves Rocha, que a conheceu no cemitério, e desde então não conseguiu se separar mais da menina.

De acordo com a mãe de Giovanna, Melina é responsável por moldar e acrescentar muito aprendizado na vida da menina. “Ela foi a primeira professora da Giovanna e tem um carinho enorme por ela, assim como nós também temos pela Melina, ela é responsável por muita coisa boa na vida da minha filha”, finalizou.

Giovanna e a professora Melina participaram de uma gravação para o quadro “Me leva Brasil” do Fantástico

* Citação da página 14 - do livro “A menina que aprendeu a ler nas lápides e outros diálogos”, de Severino Antônio Moreira Barbosa, publicado em 2008, pela Biscalchin Editor