Para comemorar o Dia das
Crianças, a Tribuna do Norte vai contar a história da pequena
Giovanna, que encantou o prefeito João Ribeiro durante a
inauguração da brinquedoteca da Vila São José, na semana
passada.
Com apenas 6 anos de idade, Giovanna lê
textos com perfeição e dedica horas do seu dia à leitura de
histórias de princesas e contos de fadas. De família humilde,
sem muito acesso a livros, ela aprendeu a ler com a ajuda do
avô, que é zelador de um cemitério. Desde os dois anos de idade,
Giovanna passava horas de seu dia, em frente aos túmulos,
juntando as letras que seu avô mostrava, para formar novas
palavras. Hoje, aos seis anos, ao invés de brinquedos, ela
prefere ganhar livros e mais conhecimento.
Marcos Cuba
Na contramão do que muitas crianças adoram
e às vezes fazem birra para conseguir, Giovanna Cury não pede
brinquedos. A garota pede livros didáticos. Entre as publicações
mais lidas por Giovanna estão os gibis e historinhas de
princesas.
Atualmente ela estuda na Creche Padre Vita,
mas desde os dois anos de idade começou a ler e acentua todas as
palavras, respira nos tempos corretos e faz todas as entonações
devidas. Ela surpreende as pessoas com a sua habilidade, por
isto foi convidada a fazer a leitura de um texto homenageando os
professores da rede municipal de ensino e encantou a todos.
Giovanna aprendeu a ler com o avô José
Carlos Fernandes, que estudou até a segunda série do ensino
primário. Porém a vida fez de José um grande professor. Ele, que
é zelador do cemitério Memorial da Paz, ensinou a menina a ler
utilizando as placas de ruas e as lápides dos túmulos. Quando
ela ia visitá-lo no cemitério, José aproveitava para ensiná-la,
porque queria que quando a neta entrasse para a escola já
soubesse alguma coisa.
Numa dessas visitas ao cemitério, a pequena
Giovanna acabou conhe-cendo a professora Melina Beatriz Rocha.
Desde este momento Milena sentiu um carinho por Giovanna e
começou a dar aulas para a pequena, que se mostrava muito atenta
e inteligente.
De acordo com a professora Melina, quando
Giovanna vai na casa dela e pede um livro, fica lendo por cerca
de uma hora e meia. Ela conta que parece que não tem criança em
casa, de tão quietinha que a jovenzinha fica.
Além das histórias de princesas e gibis, a
pequena leitora diz que lê muitas histórias folclóricas. Ela lê
e também faz contas, o que para uma criança de seis anos pode
parecer algo complexo.
Hoje Giovanna é exemplo para as outras
crianças, pois no local que estuda ela adora contar histórias
para os coleguinhas.
Questionada sobre aquela antiga pergunta
que todos adultos fazem para as crianças, ela responde que,
quando crescer, quer ser professora, porque gosta de ajudar os
amiguinhos.
O avô de Giovanna sente-se orgulhoso e
feliz ao saber que sua neta está conquistando o carinho de
muitas pessoas devido ao fato de saber ler.

O abecê das lápides
Graças ao avô, a pequena Giovanna Cury aprendeu a ler e a
escrever nos túmulos de um cemitério
(publicado na Revista Lingua Portuguesa, Março de
2009)
Vinícius Novaes
Com
apenas 2 anos, Giovanna Cury tinha o hábito de passar as tardes
com o avô. Enquanto José Carlos Fernandes, zelador do cemitério
Memorial da Paz, em Pindamonhangaba, interior de São Paulo,
trabalhava duro, a menina brincava por entre as lápides. O
cemitério era o quintal da casa da menina de cabelos loiros e
olhos verdes.
Depois de uns meses, quando as brincadeiras começaram a não ter
a mesma graça, Giovanna começou a interessar-se pelas letrinhas
de bronze, grudadas nas plaquinhas, nos jazigos. Aqueles
escritos, que guardam a lembrança de quem já morreu,
tornaram-se, então, os primeiros cadernos de alfabetização da
menina.
Com os nomes dos túmulos ela manteve o primeiro contato com o
idioma escrito, aos 2 anos e meio de idade. Um contato ainda
rudimentar, é verdade - a formação de sentido mais complexa, a
compreensão sintática de frases inteiras, viria mais tarde,
evidentemente. Mas, naquela estação de 2003, de joelhos ao chão,
com os dedinhos em cima de cada letra e o avô sempre ao lado, a
menina identificou a primeira palavra, que, até hoje, não sai da
sua cabeça.
- A primeira palavra que li foi "Ana" - diz a menina, hoje
com 7 anos, apontando para a lápide que lhe serviu de cartilha.
José Carlos Fernandes, de gestos tímidos, olhar sereno, parou de
estudar aos 11 anos. Hoje, aos 57 anos, diz ficar emocionado
quando lembra a primeira vez em que a neta leu.
- Quando percebi que ela tinha essa curiosidade, comecei a
ler para ela os nomes das pessoas que estão escritos nas lápides
- lembra.
O método usado pelo zelador foi simples. E aparentemente
funcional. Lia as letras e revelava o som que o casamento delas
significava.
- Eu falava para ela que a letra a com a letra n e com a
letra a dava "Ana". Então, eu pedia a ela que saísse pelo
cemitério atrás de outro nome igual àquele. Ficava emocionado
quando ela me chamava para ver outro nome igual ao que eu tinha
ensinado para ela - explica o avô.
Giovanna voltou a correr por entre as lápides, agora com os
olhos voltados para o chão.
- Comecei a procurar outras "Anas" para mostrar ao vovô -
diz.
Esse processo de alfabetização, despretensioso, quase uma
brincadeira, virou um hábito na vida de ambos. O aprendizado
durou cerca de dez meses, calcula José Carlos.
Chapeuzinho
Quando Giovanna nasceu, o avô já era zelador do
cemitério. Ela cresceu numa casinha simples, a metros da
imensidão de lápides. Hoje, mora com a mãe, o irmão e os avós.
- Todos os meus filhos e netos foram criados aqui no
cemitério - diz José Carlos Fernandes.
Os desafios de linguagem surgiam para Giovanna Cury à medida
que a menina perambulava entre uma lápide e outra. Desafios como
o acento circunflexo, o chapeuzinho, como a menina costuma
dizer.
- Meu avô me explicava o som que o chapeuzinho tinha na
palavra. Aí, ficava mais fácil - afirma.
Quando, nas lápides, ela encontrou nomes com w e x, empacou.
- Meu avô me explicou o som que a letra x tem. E, quando a
palavra era grande, ele falava para eu separar as sílabas - diz
a menina.
O avô completa.
- Depois de um tempo, eu saía com ela pelo cemitério e ela ia
lendo tudo e me chamando para escutar - diz José Carlos.
A pedagoga Melina Beatriz Carneiro Alves Rocha, então professora
da Escola Municipal Padre Vita, em Pindamonhangaba, soube que
sua avó e companheira de quarto morrera em 11 de outubro de
2002. Foi numa das visitas ao cemitério local que Melina
conheceu Giovanna.
- Como era muito ligada a minha avó, eu ia sempre ao
cemitério para visitar o túmulo dela. A Giovanna foi um presente
na minha vida - recorda a professora.
A menina começou a frequentar a casa de Melina. Costumava
passar os fins de semana por lá. Sempre estimulada por leituras
e jogos, Giovanna surpreendeu Melina. Em março de 2007, a
professora conseguiu uma vaga na pré-escola para a menina.
Giovanna era a mais nova aluna de Melina. Para ela, que hoje
trabalha como assessora lúdico-pedagógica na Prefeitura de
Pindamonhangaba, o gesto do avô de Giovanna foi "quase único".
- Ele foi um educador, quase sem querer. Ela começou a falar
praticamente por meio da leitura escrita - diz a especialista em
gestão escolar e pós-graduanda em educação.
Livro
O desempenho de Giovanna em aula chegou a outro
professor, Severino Antônio Moreira Barbosa, que conseguiu bolsa
de estudos para a menina na Escola Emílio Ribas, da Rede Anglo
de Ensino.
- Conhecer Giovanna e sua história foi uma experiência
poética - diz o autor de A Menina que Aprendeu a Ler nas
Lápides, lançado pela Biscalchin Editor.
As professoras Almelice Aparecida Carneiro Alves, de
português, e Kátia Tavares da Silva, que deu aulas de filosofia
a Giovanna em 2008, consideram a menina uma aluna que aprende
rápido e ajuda os colegas de sala. Ela concluiu o 1o ano do
ensino fundamental no ano passado e sonha ser professora.
- Adoro crianças e ensinar.
A leitura virou um passatempo.
- Adoro e ninguém me manda fazer isso. Faço porque gosto - diz.
Na estante, contos de fada e histórias em quadrinhos.
- Leio jornal às vezes, mas acho muito complicado. Gosto de ler
o horóscopo todo dia - diz a menina.
Giovanna, a propósito, é do signo de peixes

Pindamonhangaba: A vida
poética de Giovanna Cury
(publicado no Site Pinda Vale, Abril de 2009)
Autor:
Jornalismo Agora Vale
Nunca imaginei uma criança
alfabetizar-se a partir da leitura de
inscrições de túmulos, e o que é mais
inquietante e significativo ainda, ser uma
experiência feita poeticamente. *
Este é o contexto do livro “A menina que
aprendeu a ler nas lápides” - de Severino
Antônio Moreira, que se diz encantado com a
história de Giovanna Cury, 8 anos.
“Há mais de
30 anos na área da educação, vi poucas
histórias tão surpreendentes como esta, tão
bonita, tão cheia de poesia”, destaca o
autor, que é Mestre em Educação pela
Unicamp.
Giovanna
“não tinha nem dois anos completos” quando
começou a balbuciar as primeiras palavras,
que lia nas lápides do cemitério Memorial da
Paz, em Pindamonhangaba, explica o avô da
menina, José Carlos Fernandes, 57 anos, que
trabalha como zelador do cemitério.
A
lápide e a alfabetização
Em meio aos túmulos, flores e o
eterno silêncio do cemitério, crescia
Giovanna. Seu avô já trabalhava lá quando
ela nasceu, mas foi em meio as brincadeiras
em volta dos túmulos que surgiram os
primeiros contatos com a palavra, lembra a
menina.
“A primeira
palavra que li foi ‘Ana’, depois li ‘Maria’,
‘João’, ‘José’… E hoje leio de tudo um
pouco”, explicou Giovanna.
 |
|
Giovanna aprendeu a ler
nas lápides dos jazigos |
Desinibida e
muito madura para a idade, Giovanna é o
orgulho do avô, da mãe e das professoras.
“Meus dois
filhos aprenderam a ler com o meu pai, aqui
dentro do cemitério, mas o Raphael é mais
tímido, já a Giovanna, sempre foi muito
desinibida para conversar, para lidar com as
pessoas”, ressalta a mãe de Giovanna, Sandra
Regina Fernandes.
O cemitério era
o quintal da casa da menina e neste vasto
quintal, ao lado do avô, ela se encantou
pelas letras que via nas placas dos jazigos.
Um
local que lembra a morte a todo instante: um
lugar para a vida, para o nascimento da
escrita, da alfabetização.
O Avô, que
cursou apenas os primeiros anos do ensino
fundamental (antigo primário) diz que não
sabia o quanto colaborava com a educação da
menina, com o desenvolvimento pedagógico.
“Ela brincava
o tempo todo do meu lado, eu ia limpando e
ela ia atrás. Quando percebi que ela parava
em frente as placas, mostrei o primeiro nome
a ela: ‘Ana’, e lhe expliquei que era ‘A’,
‘N’ e outro ‘A’, então ela correu para
procurar outro nome igual, era visível a
vontade de ler, de conviver com as
palavras”, afirmou o avô.
Todo este
processo de aprendizagem durou cerca de 10
meses, até Giovanna começar a ler tudo
sozinha. Apesar da vida simples, José Carlos
passou um ensinamento complexo, sem técnica
pedagógica, mas com muito amor, serenidade e
beleza de espírito.
Um
outro olhar
Para o autor do livro que Giovanna
protagoniza, sua trajetória é mais que uma
história incomum, é a mistura de três
pilares que sustentam a família, a vida:
Empatia, brincadeira e literatura.
“A história é
muito bonita porque carrega a relação com a
vida, a empatia, a literatura, a vida
cotidiana, o laço familiar, enfim, um eterno
aprendizado”, argumenta o autor.
 |
A vice-prefeita Myriam
Alckmin e o autor do livro, Severino
Antônio |
O desejo do avô é que tudo contribua para
o crescimento da menina, de forma tranquila.
“Para mim, tudo isso que ela está vivendo me
deixa muito orgulhoso, mas o que espero para
ela é um futuro melhor, feliz, tranqüilo,
cheio de sucesso e paz”, deseja.
Paz esta que
Giovanna buscou dentro do cemitério, em meio
às lápides, aos pássaros, aos canteiros. “O
cemitério é um lugar bonito, nunca tive medo
de viver aqui dentro”, afirma Giovanna.
Sobre o
futuro, sonha em repassar aprendizado:
“Quero ser professora, ensinar aos outros
tudo o que sei, tudo o que aprendi com meu
avô. Eu gosto de ensinar, de ler, de falar”,
explica.
Não é a toa
que a menina surpreende todos a sua volta,
com uma linguagem adulta e frases completas,
ela encanta a família, os amigos, os
professores, principalmente, a pedagoga
Melina Beatriz Carneiro Alves Rocha, que a
conheceu no cemitério, e desde então não
conseguiu se separar mais da menina.
De acordo com
a mãe de Giovanna, Melina é responsável por
moldar e acrescentar muito aprendizado na
vida da menina. “Ela foi a primeira
professora da Giovanna e tem um carinho
enorme por ela, assim como nós também temos
pela Melina, ela é responsável por muita
coisa boa na vida da minha filha”,
finalizou.
 |
Giovanna e a professora
Melina participaram de uma gravação
para o quadro “Me leva Brasil” do
Fantástico |
* Citação da página 14 - do livro “A
menina que aprendeu a ler nas lápides e
outros diálogos”, de Severino Antônio
Moreira Barbosa, publicado em 2008, pela
Biscalchin Editor